Hoje estou de férias e estar nesta condição me permite refletir sobre coisas que vão além do meu universo pessoal e alcançam o macrocosmo do existir (a vida com o mundo e a sociedade).
Estava vendo um vídeo que mostrava crianças que deveriam ter entre 7 a 12 anos de idade, e a brincadeira era mostrar ditados e elas deveriam adivinhar o restante da frase. Por exemplo, alguém dizia “Água mole em pedra dura…?” e outra pessoa deveria concluir “Tanto bate até que fura”. Mas o que é interessante nos ditados é que são frases curtas, às vezes rimadas, que apontam alguma sabedoria geracional, advertências etc. Ou seja, servem para aconselhar uma nova geração baseada em preceitos do senso comum. Deste vídeo surgiram diversas coisas que, para nós que conhecemos os ditados, são super engraçadas, como: “Deus escreve certo… porque foi para a escola” ou “Quem vê cara… tá bom de vista”. Crianças estão sendo expostas à cultura e aprendendo o que a instituição “sociedade” espera das pessoas, e é justamente neste aprendizado que surgem impactos culturais/geracionais que possibilitam reflexões e questionamentos que nos tiram da alienação de aceitar as coisas, apenas por funcionarem de tal forma.
Uma das crianças tinha que completar o ditado “Camarão que dorme, a onda leva”. Esta frase fala sobre quem se acomoda, se distrai ou é menos ativo, perdendo oportunidades e sofrendo consequências, geralmente referindo-se ao ambiente profissional. Brilhantemente, com um olhar distante das exaustivas jornadas de trabalho, esse menino diz: “Camarão que dorme, sonha mais”. Isso me atravessou de uma forma ímpar e comecei a pensar sobre a escala 6×1 e todo o debate que a acompanha. Onde está o descanso nesta rotina de trabalho?
Diversos autores da psicanálise falam sobre a importância do sonhar, esse sonho mais metafórico, que fala sobre o desejo de alcançar, pois é o desejo que nos mantém em movimento. Mas como sonhar em rotinas que não oferecem descanso ou tempo livre? Onde o dia da “folga” tem que ser utilizado com outra ordem do “trabalho”, através da limpeza da casa, cuidado com entes queridos, pendências financeiras… Acho que vale a pena também a problematização da palavra “folga” pois essa palavra traz consigo a ideia de que algo está sobrando, que é extra, mais do que o necessário. Mas voltando do devaneio, percebo uma realidade opressiva que esmaga as possibilidades de prospectar o futuro. Assim, surge um dos diversos fatores de estarmos na era dos transtornos psiquiátricos, em especial depressão e ansiedade, um reflexo do pouco espaço para o descanso, o ócio e o lazer.
Então lembre-se do ditado: “Camarão que dorme, sonha mais”. E você tem espaço para sonhar?